SHINDO RENMEI: Em 1942 na cidade de Marília (SP), houve uma cerimônia de casamento de famílias japonesas no melhor hotel da cidade. E a cidade se encheu de japoneses vindos de todas as regiões. Poucos dias antes, cinco navios brasileiros haviam sido afundados pelos países inimigos e o afluxo de tantos japoneses em clima festivo, vestidos para o casamento, pareceu ostensivo deboche a muitos marilienses. Correu a notícia de que os japoneses ali estavam em movimento subversivo, o casamento era apenas pretexto para a reunião. Resultado: a festa terminou invadida por populares revoltados resultando em dezenas de feridos. A violência foi generalizada; dela não escaparam crianças, velhos nem mulheres. Retirado rapidamente da festa, o coronel Kikawa e mais alguns foram levados para Quintana, uma cidade próxima. Reunidos no galpão de uma chácara com mais cem atentos orgulhosos simpatizantes, o coronel Junji Kikawa, esfuziante, fazia o brinde: “ no tempo de guerra, a única forma de mostrar fidelidade à pátria é cumprir com as obrigações dos súditos do trono. A colônia já não está mais órfã. O imperador não será mais ultrajado no Brasil. Hoje nasceu a Shindo Renmei , a Liga do Caminho dos Súditos. Longa, mas muito longa vida à Shindo Renmei!”. Acompanhou o coronel Kikawa no brinde com saquê o coronel Jinsaku Wakiyama, o capitão Kiyo Yamauchi, Ryotaro Negoro e Seiichi Tomari, importantes membros da futura organização. Ali nascia, de parto amadurecido, a organização que viria a trazer por um lado, o terror para alguns e um certo orgulho e conforto psicológico para a maioria da colônia. (Corações Sujos - Fernando Morais)
O fim da guerra e a veiculação notícia da derrota do Dai Nippon (Grande Japão), nação de 2.600 anos de história e que até aquele momento não havia nunca sido derrotada, caiu como "um raio" na colônia japonesa aqui radicada. Acreditar ou não nas notícias veiculadas pelos "inimigos norte-americanos"? Se até outro dia o Japão estava de forma retumbante esmagando seus inimigos? Confusão e descrença, falta de informações " confiáveis" e boatos, levaram a uma divisão entre os japoneses aqui radicados. De um lado os katigumi("vitoristas"), que devido a falta de fontes de informação em língua japonesa e pela maioriaviver quase que isolada no interior do Estado de São Paulo, acreditavam na vitória do Japão na guerra,este grupo perfazia quase 80% da colônia. Acredita-se também que boa parte daqueles que formavam o grupo katigumi eram imigrantes que não conseguiram se adaptar a realidade brasileira, muitos não obtiveram o sucesso almejado e desse modo alimentavam a esperança na crença " quase cega" da vitória do Japão e do retorno à pátria.
De posição contrária se encontravam os makegumi ("derrotistas" ou "esclarecidos"), grupo formado por aqueles que tinham acesso aos meios de comunicação em língua portuguesa, possibilitando assim a formação de uma consciência da verdade e que, por esses motivos, divulgavam a notícia real de que o Japão havia perdido a Guerra e consequentemente o Imperador Hiroito deixava de ser uma figura "divina". Havia um terceiro grupo, bem menor, chamado pelo memorialista Tomoo Handa de "lero-lero", aqueles que não se definiam nem por um lado nem por outro.
A Shindo tinha sua sede na Rua Paracatu, 96, no bairro do Jabaquara, na capital paulista e outras 64 filiais espalhadas pelo interior do Estado de São Paulo. Entre os documentos apreendidos na sede da sociedade pela a Polícia Política (DOPS) que investigava o caso, havia ummapa e uma lista das principais cidades e de seus sócios-contribuintes. A cidade de Marília encabeçava a lista com cerca de 12.000 associados, logo depois vinham Pompéia (10.000), Tupã (8.500), Mirandópolis (5.700) entre outras. A maior parte dos associados se encontrava nas regiões da Noroeste e da Alta Paulista no Estado de São Paulo.
Até o início de 1946 elementos ligados a Shindo usavam da intimidação escrita e verbal para com os japoneses considerados makegumis, que estivessempropagando a derrota do Japão por meio de cartas, bilhetes ou até mesmo cartazes afixados nas cidades do interior, todos em língua japonesa. Das ameaças escritas, passou-se para atentados com bombas caseiras e logo depois para assassinatos. (Shindo Renmen, uma breve história do imigrantes japoneses no Brasil, Rogério Dezem)
" Na época da guerra, os japoneses foram proibidos de escutar notícias pelo rádio, mas meu pai tinha um e ouvia escondido. Ele escutou o discurso do imperador Hirohito declarando a derrota do Japão e contou aos seus funcionários.De manhã, um caminhão passou em casa com um sobrinho, dizendo que meu pai tinha se machucado. Me disseram que ele havia levado um tiro no pé, mas não devia ser grave. Quando cheguei à casa de meus pais, havia um caixão na mesa da sala. Papai havia morrido. Meu pai, Ikuta Mizobe, foi a primeira pessoa assassinada pela Shindo Renmei (organização secreta que não aceitava a derrota japonesa na Segunda Guerra), em 1946.Quem gosta que o seu país, a terra onde você nasceu, perca uma guerra? Ninguém! Como é que alguém fala que meu pai ficou contente por que o Japão perdeu a guerra? Deu raiva de quem mandou matar. Não perdôo, não." (Aiko Higuchis egurando o bebê na foto ao lado, filha da primeira vítima do Shindo Renmei)
Cheguei a ir várias vezes para a Ilha Anchieta, mas depois que me aprofundei na história do Shindo Renmei, passei a ver aquele lugar com outros olhos.
Curiosidade: O CAMARÃO NA MORANGA
Diz a lenda que um pescador foi até a Ilha de Anchieta comprar umas morangas dos japoneses que estavam presos lá e que cultivavam abóboras. No caminho, uma das morangas caiu do seu barco e após alguns dias foi encontrada em uma das praias de Ubatuba. Uma cozinheira encontrou a moranga e levou para casa, quando cortou a tampa daquela abóbora viu que estava cheia de camarões, resolveu, então, cozinhá-la com os camarões dentro. Daí nasceu o camarão na moranga




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